domingo, 16 de agosto de 2020

Viver preso na infância

 




Não gosto de olhar para o passado com um ar de muito saudosismo, tampouco de arrependimento. Acredito que podem ser movimentos perigosos, tendo em vista que não podemos modificá-lo e nem ficarmos presos ao que foi prazeroso. Sabe quando alguém fica o tempo inteiro celebrando a infância, como se fosse o único momento da sua história que realmente valeu a pena ser vivido? Sinto um pouco de desconforto quando vejo pessoas fazendo esse endeusamento exagerado da infância – era feliz e não sabia – tente imaginar uma vida inteira com perspectiva de durar 70 anos, onde você é feliz durante 15 e infeliz por 55 anos. Faz sentido? “Ah Dani, mas na infância não existia maldade, responsabilidade, trabalho, contas a pagar, passávamos o dia inteiro brincando.” É esse o seu parâmetro de felicidade?

Preciso confessar que, durante a minha infância eu tinha o sonho de ser adulta, queria trabalhar, ganhar o meu dinheiro, minha liberdade, amadurecer meus pensamentos e construir a minha história. Sei que esse papo é mó chato, mas não posso inventar outra história bonitinha. Entenda que não sou aquela pessoa que se recusa a brincar com crianças, fazer alguma bobagem que remete à infância como tomar banho de chuva, parque de diversão ou outro tipo de situação, como o próprio título do texto diz, estou descrevendo uma hipótese de aprisionamento.

Não é fácil encarar a jornada da vida adulta, mas essa é a vida, todos teremos que viver cada etapa, mesmo contra a nossa vontade. Tentar estacionar na infância a qualquer custo já foi até diagnosticado como um problema psicológico, chamamos de Síndrome de Peter Pan, ou seja, o sujeito que se recusa a crescer e assumir as responsabilidades de uma vida adulta, permanece agindo constantemente de forma infantil e imatura. Inclusive preserva hobbies e hábitos associados a esta época, temos o exemplo mais conhecido que é o Michael Jackson.

Sei que transitei de uma simples nostalgia para um transtorno psicológico. O que estou tentando dizer é que a vida segue, não podemos reviver o que já passou e nem voltar para modificar o passado. Afirmar que sua felicidade estava depositada apenas naquele período é decretar a sentença de infelicidade pelo o resto da vida, resgatar memórias o tempo inteiro na tentativa de amenizar a própria incapacidade de encontrar satisfação com o presente é assustador. É duro o que vou dizer, mas talvez a sua vida hoje seja amarga demais para encontrar algo que valha a pena ser celebrado.

Eu gosto de relembrar algumas coisas boas da infância, das brincadeiras na rua com meus vizinhos e das bobagens que inventávamos, mas em momentos bem pontuais. Não crio a ilusão de que queria vive-los novamente, não fico resgatando memórias para tentar ressentir emoções e não procuro as pessoas que fizeram parte dessa história, na tentativa de fazer uma sessão eterna de nostalgia. A vida segue e precisamos seguir.


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