Ouvi alguém falar que seria uma grande falta de respeito afirmar que 2020 foi um ano bom, de mudanças, aprendizados, coisas
agradáveis e etc. Acredito que é bobagem querer que todos tenham o mesmo sentimento sobre o que vivemos
esse ano, mesmo que estejamos passando por uma pandemia que devastou a vida de
muitos. Cada um reage completamente diferente com aquilo que a vida nos entrega,
é por isso que algumas pessoas ficam profundamente abaladas com a perda de um
animal de estimação, enquanto outras conseguem ressignificar e superar a perda
de todos os familiares, temos o próprio Viktor Frankl como exemplo. É uma
experiência muito pessoal, que exerce influência de inúmeros fatores, seja a
filosofia de vida, instalação na realidade, crença no transcendente, reflexão
sobre a morte e sentido de existência.
Estou aqui, pertinho da hora da
virada e tentando descrever como foi esse ano para mim. 2020 já tinha um
significado especial para mim, pois marcaria a minha entrada na casa dos 30
anos, o que é um simbolismo pessoal e muito importante para mim. Estava
disposta a fazer algumas mudanças e repensar várias questões da minha vida. Por
isso desde 2019 eu já estava me preparando para esse ano, por coincidência ou
não, foi exatamente isso que me ajudou a ter um 2020 mais “tranquilo”, eu já
estava em um processo nos anos anteriores e foi a razão de ter sido mais fácil
superar os desafios do ano.
Nem de longe eu imaginava que
seria dessa forma, com certeza um ano que nos forçou a testar nossa capacidade
de adaptação às mudanças e superação dos obstáculos. Testou nossa paciência, a habilidade
de tentar processar uma chuva de informações totalmente desconexas brotando por
todos os lados, algumas nos deixando apavorados, outras confusos e incertos. Incertezas,
outra palavra que encaixa perfeitamente, não sabíamos o que poderia acontecer,
se nossas vidas seriam preservadas, nossos empregos, nossa liberdade e nosso
futuro. Praticamente um tiro no escuro. Nem preciso reafirmar o quanto ficou
claro que nós não somos nada, estamos reféns de um vírus praticamente invisível.
Não custa nada refletir sobre nossa pequenez.
No futuro certamente teremos muitas
pautas para serem levantadas ao repensarmos sobre 2020, ninguém gosta de
associar o sofrimento como uma grande fonte de aprendizado, amadurecimento e superação.
Mas infelizmente a dor também é uma didática. Tem uma frase de C.S. Lewis que
diz assim “Deus sussurra em nossos ouvidos por meio de nosso prazer,
fala-nos mediante nossa consciência, mas clama em alta voz por intermédio de nossa
dor; este é o seu megafone para despertar o homem surdo”. Nós não temos o
controle sobre nossas vidas.
