sábado, 31 de outubro de 2020

Reforma de conceitos e os vínculos pessoais

 


Se tem uma palavra que me descreve esse ano, posso dizer que é desconstrução. Alguns conceitos e comportamentos que até um dia desses estavam redondinhos na minha cabeça, precisaram ser revistos e ajustados. Ainda carrego muitos medos, porém, os dois maiores deles estou me forçando a enfrentar, o medo do julgamento e o medo de perder, cheguei à conclusão de que o medo de perder fez com que eu me perdesse de mim mesma.

Na verdade, ambos os medos foram os guias que conduziram boa parte dos meus comportamentos, me vi na obrigação de me moldar com as características de cada grupo no qual estava inserida, isso abrangia inclusive deixar os outros acreditarem que compactuo com as mesmas convicções. Onde já se viu? É um verdadeiro ato de covardia. Eu sempre achei que era um baita pé no saco ficar empurrando goela abaixo aquilo que acredito, mas também se omitir de tal forma apenas para evitar o enfrentamento e conflitos, já é um exagero. Tudo em prol de um bem maior, preservar o vínculo com uma pessoa boa, priorizar uma relação que em alguma medida te fez bem. No entanto, o preço acaba por ser alto e é preciso avaliar se realmente vale a pena.

A decisão foi recategorizar a forma como lido com cada grupo. Aquelas pessoas que tenho total liberdade para ser quem eu sou e expor tudo aquilo que acredito, que compartilham das mesmas visões, interesses da vida adulta e estão interessadas no aprofundamento genuíno do vínculo, onde existe a confiança, abertura e manutenção da relação, essas terão prioridade na minha dedicação, são os que me fazem bem, trazem substância para a vida e quero manter por perto. Os que não possuo vínculo mais íntimo e não tenho pretensão de ter, não precisarei fazer esforço nenhum e nem tentarei expor minhas questões mais pessoais. E aqueles onde o tempo passou e a vida foi naturalmente desalinhando o ritmo da conexão, percebe-se que a união era baseada naquilo que não existe mais, em um “eu” que ficou no passado. A compatibilidade ficou pelo caminho e não houve esforço suficiente para reinventar e encontrar pontos de afinidade na vida adulta, que podem justamente ser diferentes ao que tinha antes, a relação torna-se um eterno rememorar coisas do passado que não fazem mais sentido. Esses ficarão registrados na memória, e nossos encontros serão apenas para resgatar algo que já foi bom um dia, porém, que não permaneceu com a profundidade que um dia existiu.

Por pura coincidência, no exato momento que escrevo esse texto, o Padre Fábio faz uma postagem resumindo tudo o que falei. “Opte pela autenticidade. Ela fará a seleção natural dos que deverão seguir com você. Recuse o fardo de querer agradar a todos. É perda de tempo. Buscar a unanimidade é escravidão. Bom mesmo é estar com os que não lhe imaginam, com os que quiseram conviver com a sua verdade.”


domingo, 18 de outubro de 2020

Antes de querer salvar o mundo, organize sua vida.

 



Hoje me peguei relendo a regra 6 do livro do Jordan Peterson – 12 regras para a vida. “Deixe sua casa em perfeita ordem antes de criticar o mundo”. Aliás, recomendo fortemente a leitura desse livro, podemos extrair incontáveis ensinamentos.

Quem me conhece sabe que tenho um certo aborrecimento por pessoas que respiram politicagem 24h por dia, o quanto é chata essa briga de ideologia e farpas trocadas. Acho curioso quando vejo pessoas querendo carregar as dores do mundo nas costas, gastam boa parte do dia em debates nas redes sociais, assistindo vídeos, consumindo e sofrendo por algo que está muito distante do seu poder de interferência. Imagina se vou sofrer ao saber que uma espécie de baleia está ameaçada de extinção na Antártida. Se vou ficar enfurecida toda vez que o presidente abrir a boca e falar asneira, ou o influencer teve um comportamento repugnante. Assumindo essa postura passo assim a internalizar grandes doses de ódio, indignação e revolta. Bom, não faço ideia de quais sejam as reais pretensões, talvez ser um herói, justiceiro ou mártir.

Mas deixa eu te perguntar, o que tem feito pelas pessoas que estão a seu alcance? Está amando, se dedicando e tratando seu conjugue e filhos com respeito? Já conseguiu dar uma vida digna aos seus filhos? Consegue estabelecer a paz no seu lar? Dedicar tempo, cuidado e afeto a quem você realmente ama? Consegue ser o suporte quando seus amigos precisam? Está se dedicando a sua carreira? Busca fortalecer seu caráter, gastar tempo se aperfeiçoando e tentando ser uma pessoa melhor? Seus hábitos destroem sua saúde? Conseguiu arrumar a vida? As vezes tenho a impressão de que é mais “fácil” ir em busca do inalcançável, do que fazer algo que está dentro de suas possibilidades.

As consequências são inúmeras, estagnação na vida, uma onda de amargura, estresse, raiva, falta de esperança, distanciamento de pessoas queridas, ansiedade, ressentimento, doenças, falta de sentido, revolta com a vida etc. Como forma de consolo, talvez cresça a sensação fantasiosa de dever cumprido ao acreditar que esteja “lutando para que o Brasil não vire a Venezuela”, “lutando contra a esquerda maldita que destrói nossas famílias”, “lutando contra o patriarcado e os conservadores”.

Eu até entendo, mas não tem como tentar fugir, mais cedo ou mais tarde você vai perceber que acompanhar política de forma doentia é apenas uma fuga, e que aos poucos ela te impede de dedicar tempo na construção da própria vida. Você se afasta daquilo que a vida pede que você seja. Talvez com esse redirecionamento de prioridades, você perceba que se todos fizerem o mesmo, o mundo pode parar de ser um lugar pior.

Faça lentamente essa mudança, você vai perceber que sua vida vai começar a ficar mais organizada.


quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Los Hermanos - O velho e o moço

 



Deixo tudo assim
Não me importo em ver a idade em mim
Ouço o que convém
Eu gosto é do gasto

Sei do incômodo e ela tem razão
Quando vem dizer, que eu preciso sim
De todo o cuidado

E se eu fosse o primeiro a voltar
Pra mudar o que eu fiz
Quem então agora eu seria?

Ah, tanto faz
Que o que não foi não é
Eu sei que ainda vou voltar
Mas eu, quem será?

Deixo tudo assim
Não me acanho em ver
Vaidade em mim
Eu digo o que condiz
Eu gosto é do estrago

Sei do escândalo
E eles têm razão
Quando vêm dizer
Que eu não sei medir
Nem tempo e nem medo

E se eu for
O primeiro a prever
E poder desistir
Do que for dar errado?

Ah
Ora, se não sou eu
Quem mais vai decidir
O que é bom pra mim?
Dispenso a previsão

Ah, se o que eu sou
É também o que eu escolhi ser
Aceito a condição

Vou levando assim
Que o acaso é amigo
Do meu coração
Quando fala comigo
Quando eu sei ouvir


Eu sou muito encantada por essa música, já ouvi centenas de vezes. É uma típica reflexão sobre a vida, e refletir sobre a vida tem total relação comigo. A interpretação que tenho é que se trata de uma conversa entre um moço e um velho, porém, ambos são a mesma pessoa. A sabedoria de um velho que se encontra cheio de questionamentos quanto as suas escolhas feitas ao longo da vida. O que mais brilha em meus olhos é quando ele questiona como seria se ele tivesse feito escolhas diferentes “quem então agora eu seria?”.  Logo após temos uma constatação de conformidade com a vida que escolheu “se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição”. Observamos também um ponto forte de autorresponsabilidade, temos a obrigação de assumir as rédeas da própria vida e carregar as consequências dos nossos atos “se não sou eu quem mais vai decidir o que é bom pra mim? Dispenso a previsão”.

É justamente a meditação que faço sobre a minha vida, não tenho nenhum fetiche de voltar no tempo e fazer escolhas diferentes, estou satisfeita com a vida que tenho porque ela é fruto das minhas decisões e assumo total responsabilidade sobre elas. Tudo que aconteceu foi necessário para formar quem eu sou, e aceito essa condição, até porque o tempo não volta, e ficar nessa ilusão de supor como seria é um fardo bem desgastante para carregar.