sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Viajar sozinha

 


Sozinha? É engraçado observar a reação das pessoas, como se fosse algo assustador. Liberdade ou solidão? As reações vão desde uma grande admiração, inspiração e até mesmo pena, percebo facilmente que cada opinião revela algo mais sobre quem emite do que da própria realidade. 

“Você é muito corajosa”. Apesar de ter um histórico com várias viagens de moto, o que é razoavelmente arriscado, não tenho essa adrenalina de viver perigosamente. Tenho medo? Lógico, inclusive entrei em pânico ao pensar na fatalidade com a Marília. Mas sempre tive consciência de que viver é correr riscos mesmo, sair de casa é lidar com o imprevisível de talvez não voltar, mesmo assim busco não ser refém desse medo, de um provável assalto, uma bala perdida, um acidente, cair e bater a cabeça, infelizmente essa é a vida real. A coragem é o enfrentamento do medo.

Então, mesmo com temor, com frio na barriga, com alguns desaconselhando, com a incerteza do que pode acontecer, sabendo que posso me perder, me sentir só e ficar doente, mesmo assim eu vou. Deixo em casa as opiniões de quem acha o mundo perigoso demais, agradeço e fico muito feliz com quem se preocupa genuinamente, acho esse cuidado uma das demonstrações de amor mais linda, mas tento não ser dominada pelo pânico. O fato é que existir é perigoso (para uma mulher então...) mas a gente resiste. Não vou ficar esperando a companhia perfeita e a certeza da segurança para realizar meus anseios. Sabe aquele clichê de que o tempo não espera, que a vida é uma só e a felicidade depende de você? É sobre isso.


Coisas de melancólica

 



Eu sei que essa foto parece muito clichê, do tipo “deixa eu fingir que estou pensativa em uma paisagem linda, passando a impressão de que sou muito culta e filosófica” rsrs Mas se tem uma imagem que representa fielmente quem eu sou, pode acreditar que é essa.

Hora do recreio da 4ª série, enquanto a maioria das crianças corriam e brincavam, eu procurava o lugar mais isolado e silencioso para ficar um tempo parada e sozinha (uma criança de 10 anos), na adolescência eu passava horas durante a madrugada na janela do meu quarto olhando para o nada e pensando na vida, gaseava a última aula do cursinho e apreciava o finalzinho da tarde na praia, ou sentada na praça da independência. 

Até hoje preciso me policiar quando permaneço em um grupo, se não estou diretamente envolvida na conversa, começo a me isolar em meu mundo e mergulhar nos pensamentos, na maioria das vezes estou pensando inclusive sobre o assunto debatido no grupo, mas é algo interno e que só consigo compartilhar quando a ideia já está organizada na minha cabeça. Na minha mente o raciocínio está estruturado, mas fico desesperada quando eu compartilho e a pessoa não consegue entender da mesma forma, ou até distorce a opinião. No final acabo ficando só para mim mesma. 

Já fui abordada algumas vezes por estranhos na rua perguntando se estava bem, se queria conversar e tentando evangelizar, no final eu achava graça. Antes eu me classificava como estranha e antissocial, não gostava desse jeito e não me achava normal, já fui chamada até de “viajona”, até conhecer um amigo com características muito parecidas, amava passar horas conversando com ele. Hoje o autoconhecimento me fez entender os motivos, eu realmente preciso de um tempo sozinha para organizar meus pensamentos, descansar, recarregar as energias, refletir sobre assuntos do meu interesse, fazer autoanálises e observar minhas atitudes diante acontecimentos externos. Meu estilo de viagem também diz muito sobre isso. É um exercício terapêutico! Alguém se identifica?


Eu sou sensível?

 



Uma mulher forte, independente, corajosa, decidida, desenrolada e sem frescura. Arrisco a dizer que é assim que a maioria das pessoas me enxergam, em certo grau até concordo, porém, em meio a tantas características que represente um certo rigor, é possível encontrar alguém bastante sensível, e posso afirmar com convicção que minha sensibilidade me salva. Contraditório? Basta lembrar que existe diferença entre fragilidade e sensibilidade. Fragilidade tem mais relação com nossa estrutura, com a fraqueza, já a sensibilidade é uma percepção mais aguçada sobre algumas coisas, que sente as impressões interiormente com mais profundidade.

É aquilo que te faz ficar encantada ao observar crianças brincando e toda a beleza que envolve e mora na inocência. Que permite parar, assistir ao pôr do sol, perceber a perfeição e poesia desse espetáculo da natureza. Que consegue identificar um olhar sincero e carinhoso, motivo suficiente para transformar um dia péssimo em maravilhoso. É o que te faz observar pessoas com atos de gentileza, mostrando que ainda é possível acreditar em um resquício de humanidade. É o que te faz confiar que ainda existem pessoas dispostas a doarem sua vida em amor. É o que te faz sonhar com a eternidade, enxergar bondade e beleza na vida.

É isso que me salva, que não me permite ser jogada na onda que só enxerga a barbárie humana, de quem consome e internaliza apenas as desgraças noticiadas diariamente, de quem vive mergulhado em um pessimismo crônico, de quem acorda murmurando por ter que trabalhar, que se joga em um buraco e tenta te levar junto. Que não me deixa ser engolida pela rotina e esquecer do que realmente importa na vida. De quem desprezou o ser humano, que não acredita em valores como a lealdade, fidelidade, compromisso e relações duradouras.

Acredito que ser forte e ao mesmo tempo sensível faz parte de um exercício que te leva a uma vida bem vivida, é a harmonia que busco cultivar.