sábado, 14 de maio de 2022

Sobre utilidade e humanidade

 


- Dani, meu celular está esquisito, dá uma olhada aqui. Poderia emitir uma nota fiscal? Pesquisa o preço de um produto para mim? Não consigo dirigir, me leva até ali.

- Nem te conto o que aconteceu comigo hoje...

- Dani, vou sair do emprego, calcula quanto vai ficar minha rescisão. Estou precisando desabafar, vamos dar uma volta? Vai em tal lugar pegar uma encomenda pra mim. O ar condicionado parou de funcionar.

- Estava pensando aqui em uma situação que aconteceu comigo, eu me senti...

- Dani recebi uma mensagem aqui, me diz o que ela significa. Não consigo finalizar uma compra online, vê se estou fazendo algo errado. Estava esperando você chegar para verificar porque isso aqui não está funcionando.

- Hoje meu dia foi tão estressante...

- Dani preciso que você venha aqui buscar uma encomenda e deixar na casa de fulano. Você vai sair? Passa e compra lanche pra mim. Gera um boleto para eu pagar. Marca uma consulta para mim. Quero sair e estou sem companhia, vamos comigo? Pode me dar uma carona?

Ei, ei, ei para um pouco, você consegue ver que existe uma pessoa aqui? Será que é incômodo demais prestar atenção em mim por um brevíssimo momento? Eu posso falar de como estou me sentindo? Como foi o meu dia? Consegue me ouvir? Consegue me ver além da minha utilidade? Você realmente se importa comigo?

Sou uma pessoa bastante prestativa, realmente gosto de servir, descobri essa inclinação na adolescência quando amava servir nos eventos da igreja. Porém percebo que tem o seu preço, acostumar as pessoas a te procurarem porque em algum momento será útil, é um chão muito perigoso, porque às vezes a gente pensa que o outro gosta genuinamente de você, mas na verdade é pela sua serventia.

Tenho consciência que a maioria dos casos não é na maldade, percebo claramente que vivem no modo automático, e como eu também sempre passo uma imagem de ser uma pessoa bem resolvida, talvez crie uma impressão de que sou blindada para algumas coisas. Mas antes de tudo eu sou humana, e como todo ser humano, carrego emoções, conflitos, dúvidas, pensamentos, ideias, histórias, sinto medo, raiva, tristezas e alegrias. As vezes tudo o que você precisa é que o outro veja a humanidade que existe em você, sinceramente não consigo visualizar um relacionamento ter vida longa sem esse elemento.

Tem um texto do Padre Fábio de Melo que fala sobre esse assunto, e confesso que não fico nenhum pouco confortável em refletir sobre isso. Ele lança o questionamento: se quer saber se o outro te ama de verdade é só identificar se ele seria capaz de tolerar a sua inutilidade. Eu tinha essa certeza com duas pessoas, uma delas infelizmente faleceu, a outra não poderia ser ninguém além da minha mãe. Não vou mentir que vez ou outra bate uma angústia imensa.

Enfim, se não fizer uma pausa agora, esse relato corre sério risco de ir de ladeira abaixo, não quero transformá-lo em algo triste, apenas em uma constatação.

Sigo firme no meu propósito de vida, é nele que encontro sentido. 


Um comentário:

  1. Me identifiquei muito com suas palavras… é exatamente assim que me sinto em vários momentos. Obrigada por traduzir em texto algo tão real e humano.

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