- Dani, meu celular está
esquisito, dá uma olhada aqui. Poderia emitir uma nota fiscal? Pesquisa o preço
de um produto para mim? Não consigo dirigir, me leva até ali.
- Nem te conto o que aconteceu
comigo hoje...
- Dani, vou sair do emprego,
calcula quanto vai ficar minha rescisão. Estou precisando desabafar, vamos dar
uma volta? Vai em tal lugar pegar uma encomenda pra mim. O ar condicionado parou
de funcionar.
- Estava pensando aqui em uma
situação que aconteceu comigo, eu me senti...
- Dani recebi uma mensagem aqui,
me diz o que ela significa. Não consigo finalizar uma compra online, vê se
estou fazendo algo errado. Estava esperando você chegar para verificar porque isso
aqui não está funcionando.
- Hoje meu dia foi tão
estressante...
- Dani preciso que você venha
aqui buscar uma encomenda e deixar na casa de fulano. Você vai sair? Passa e
compra lanche pra mim. Gera um boleto para eu pagar. Marca uma consulta para
mim. Quero sair e estou sem companhia, vamos comigo? Pode me dar uma carona?
Ei, ei, ei para um pouco, você consegue ver que existe uma pessoa aqui? Será que é incômodo demais prestar atenção em mim por um brevíssimo momento? Eu posso falar de como estou me sentindo? Como foi o meu dia? Consegue me ouvir? Consegue me ver além da minha utilidade? Você realmente se importa comigo?
Sou uma pessoa bastante
prestativa, realmente gosto de servir, descobri essa inclinação na adolescência
quando amava servir nos eventos da igreja. Porém percebo que tem o seu preço,
acostumar as pessoas a te procurarem porque em algum momento
será útil, é um chão muito perigoso, porque às vezes a gente pensa que o outro
gosta genuinamente de você, mas na verdade é pela sua serventia.
Tenho consciência que a maioria
dos casos não é na maldade, percebo claramente que vivem no modo automático,
e como eu também sempre passo uma imagem de ser uma pessoa bem resolvida,
talvez crie uma impressão de que sou blindada para algumas coisas. Mas antes de
tudo eu sou humana, e como todo ser humano, carrego emoções, conflitos,
dúvidas, pensamentos, ideias, histórias, sinto medo, raiva, tristezas e
alegrias. As vezes tudo o que você precisa é que o outro veja a humanidade que
existe em você, sinceramente não consigo visualizar um relacionamento ter vida
longa sem esse elemento.
Tem um texto do Padre Fábio de
Melo que fala sobre esse assunto, e confesso que não fico nenhum pouco
confortável em refletir sobre isso. Ele lança o questionamento: se quer saber
se o outro te ama de verdade é só identificar se ele seria capaz de tolerar a
sua inutilidade. Eu tinha essa certeza com duas pessoas, uma delas infelizmente
faleceu, a outra não poderia ser ninguém além da minha mãe. Não vou mentir que
vez ou outra bate uma angústia imensa.
Enfim, se não fizer uma pausa
agora, esse relato corre sério risco de ir de ladeira abaixo, não quero
transformá-lo em algo triste, apenas em uma constatação.
Sigo firme no meu propósito de
vida, é nele que encontro sentido.

Me identifiquei muito com suas palavras… é exatamente assim que me sinto em vários momentos. Obrigada por traduzir em texto algo tão real e humano.
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