domingo, 14 de setembro de 2025

Ser autêntico tem o seu preço

O preço que se paga por ser autêntico é alto demais, principalmente por viver em uma sociedade que não entende a força dessa escolha. Você não se conforma com as normas ditadas, resiste à tentativa de fingir algo ou sentimentos, não se curva facilmente à opinião alheia, não aceita o fluxograma padrão estabelecido, padrão esse que força muitas pessoas a seguirem de forma irracional, sem pensar nas consequências, nem refletir sobre como pode influenciar na vida e felicidade de terceiros. Você não aceita, de forma alguma, viver uma mentira, por mais que racionalmente seja o caminho “correto”; você não aceita se esconder por trás de um personagem.

Ser autêntico custa um preço alto, cobrado por quem nos cerca, por quem não reconhece a liberdade de ser de verdade, sem falsidade ou máscaras. Afinal, viver sem máscaras é um presente ao mundo e a você mesmo. Ser você é o que te faz deitar com tranquilidade, pois dentro de si ecoa a frase: “pensem o que quiserem, falem o que quiserem, eu sei quem eu sou e fiz minhas escolhas”.

Existe uma necessidade humana: o vínculo e o apego. Sim, temos o anseio de sermos amados e de termos proximidade emocional com outros, e, em nome disso, sacrificamos um pouco da nossa autenticidade para manter a validação do outro. Eu já fiz isso. É como falar algo que seja aceitável para o outro, enquanto dentro de si gritava algo diferente. É guardar numa caixinha seus princípios para não conflitar com o outro, para manter a harmonia na relação. Mas quem é autêntico não consegue sustentar isso por muito tempo. Uma hora você não aguenta mais e chega à conclusão de que, se não pode ser livre dentro de uma relação para ser quem é, não vale a pena permanecer ali, se anulando para se encaixar.

Provavelmente você já viu uma amiga de longa data que, ao iniciar um relacionamento, se moldou ao jeito do parceiro de forma tão intensa que acabou perdendo um pouco da própria personalidade. Ou seja, a necessidade de viver um relacionamento era tão forte que ela estava disposta a abrir mão de parte de si mesma. E esse é um princípio forte dentro de mim: prefiro mil vezes abrir mão de uma relação que não é recíproca, verdadeira, onde não haja amor, cumplicidade e lealdade, onde não tenha liberdade para ser o que é, do que viver algo apenas para cumprir tabela, suprir carência ou medo da solidão. Abro mão tranquilamente.

Aos 16 anos, fui vítima de um boato espalhado por uma pessoa que me viu crescer, apenas pelo simples fato de não ter a conduta “padrão” de uma adolescente, abrindo margem para julgamentos e distorções da realidade. Não tive maturidade para lidar com isso; a raiva era tão grande que nunca mais olhei na cara da pessoa, que faleceu pouco tempo depois.

Até hoje percebo que essa falta de adequação ao comportamento padrão traz uma série de teorias, julgamentos e certezas sobre quem você é, mesmo sem nunca terem nenhuma confirmação pessoal sobre isso. Aí me pergunto: será que eu me importo o suficiente com essas pessoas a ponto de me desgastar com justificativas sobre quem sou? Ou foda-se, não preciso provar nada a ninguém. Deixo esse privilégio apenas aos poucos que possuem acesso a mim de forma profunda, que terão abertura com alguém de verdade, disposta a estabelecer conexões genuínas, intensas e reais.

Mergulho no mundo interior


Recebi muitos pedidos para voltar a escrever, não era uma multidão (máximo 3 pessoas), mas eram insistentes. Gente que me conhece para entender o quanto é importante. Talvez por perceber minha dificuldade em me expressar verbalmente e reconhecer a avalanche que carrego por dentro: pensamentos, reflexões, autoanálise. Mergulho de cabeça no meu mundo interno e escrever é a melhor forma de colocar para fora.

Essa inclinação vem de longe. Na infância, no intervalo da escola, eu me afastava para ficar em silêncio sozinha. Antes de dormir, passava horas na janela, olhando o céu e dividindo pensamentos com Deus. Quando meus pais estavam com os amigos da igreja, eu observava, ouvia as conversas, inclusive questionava internamente as incoerências.

Percebo que quem vive na superfície parece passar com mais leveza pelo mundo. Não digo com julgamento, são formas diferentes de encarar a vida. Alguns preferem não olhar para suas sombras, por medo do que possam encontrar, ou fingem que a dor não está ali, e isso poupa da dificuldade de lidar com a complexidade da vida. Talvez eu sinta um pouco de inveja, eles parecem mais leves e despreocupados, talvez porque disfarçam bem suas angústias, ou porque nunca as enfrentaram de fato. Enquanto isso, nós lutamos para não sermos engolidos pelos próprios pensamentos. Para que a ruminação não nos paralise, para que a sensação de inadequação e inconformismo não sabotem nossa rotina.

Mas também reconheço os benefícios: raramente somos imprudentes, somos criteriosos nos relacionamentos, atentos aos detalhes, cuidadosos nas escolhas, práticos, melhoramos as relações, não somos facilmente atraídos por pensamentos que deixam pessoas bitoladas, buscamos autoconhecimento, entre outros.

Mas a vida já vem com um script pronto, basta seguir. Pra que questionar e tentar algo diferente do que “funcionou” por séculos? Não sei. Só sei que adotei um lema: não quero minha vida igual a tudo o que vejo. E, prestes a fazer 35, não me arrependo de nenhuma escolha. Cada um lida com a dor e a delícia de ser quem é.

"As vezes, enxergo tão profundamente a vida que, quando olho ao redor, percebo que ninguém me acompanhou e que meu único companheiro é o tempo."

sábado, 14 de maio de 2022

Sobre utilidade e humanidade

 


- Dani, meu celular está esquisito, dá uma olhada aqui. Poderia emitir uma nota fiscal? Pesquisa o preço de um produto para mim? Não consigo dirigir, me leva até ali.

- Nem te conto o que aconteceu comigo hoje...

- Dani, vou sair do emprego, calcula quanto vai ficar minha rescisão. Estou precisando desabafar, vamos dar uma volta? Vai em tal lugar pegar uma encomenda pra mim. O ar condicionado parou de funcionar.

- Estava pensando aqui em uma situação que aconteceu comigo, eu me senti...

- Dani recebi uma mensagem aqui, me diz o que ela significa. Não consigo finalizar uma compra online, vê se estou fazendo algo errado. Estava esperando você chegar para verificar porque isso aqui não está funcionando.

- Hoje meu dia foi tão estressante...

- Dani preciso que você venha aqui buscar uma encomenda e deixar na casa de fulano. Você vai sair? Passa e compra lanche pra mim. Gera um boleto para eu pagar. Marca uma consulta para mim. Quero sair e estou sem companhia, vamos comigo? Pode me dar uma carona?

Ei, ei, ei para um pouco, você consegue ver que existe uma pessoa aqui? Será que é incômodo demais prestar atenção em mim por um brevíssimo momento? Eu posso falar de como estou me sentindo? Como foi o meu dia? Consegue me ouvir? Consegue me ver além da minha utilidade? Você realmente se importa comigo?

Sou uma pessoa bastante prestativa, realmente gosto de servir, descobri essa inclinação na adolescência quando amava servir nos eventos da igreja. Porém percebo que tem o seu preço, acostumar as pessoas a te procurarem porque em algum momento será útil, é um chão muito perigoso, porque às vezes a gente pensa que o outro gosta genuinamente de você, mas na verdade é pela sua serventia.

Tenho consciência que a maioria dos casos não é na maldade, percebo claramente que vivem no modo automático, e como eu também sempre passo uma imagem de ser uma pessoa bem resolvida, talvez crie uma impressão de que sou blindada para algumas coisas. Mas antes de tudo eu sou humana, e como todo ser humano, carrego emoções, conflitos, dúvidas, pensamentos, ideias, histórias, sinto medo, raiva, tristezas e alegrias. As vezes tudo o que você precisa é que o outro veja a humanidade que existe em você, sinceramente não consigo visualizar um relacionamento ter vida longa sem esse elemento.

Tem um texto do Padre Fábio de Melo que fala sobre esse assunto, e confesso que não fico nenhum pouco confortável em refletir sobre isso. Ele lança o questionamento: se quer saber se o outro te ama de verdade é só identificar se ele seria capaz de tolerar a sua inutilidade. Eu tinha essa certeza com duas pessoas, uma delas infelizmente faleceu, a outra não poderia ser ninguém além da minha mãe. Não vou mentir que vez ou outra bate uma angústia imensa.

Enfim, se não fizer uma pausa agora, esse relato corre sério risco de ir de ladeira abaixo, não quero transformá-lo em algo triste, apenas em uma constatação.

Sigo firme no meu propósito de vida, é nele que encontro sentido. 


sexta-feira, 13 de maio de 2022

Seremos melhores após a pandemia?



Algumas vezes me pego pensando nos ingênuos que acreditaram que o mundo seria melhor após a pandemia. Que passaríamos por um processo de evolução pessoal, espiritual e humanitária, no qual nosso foco seria direcionado para dar mais valor ao que realmente importa. Estar diante da finitude da vida ampliaria nossa visão para pensar na maneira como agimos, pensamos e sentimos, trazendo assim ressignificação. Vi até em uma pesquisa que 73% das pessoas afirmaram que seriam melhores após a pandemia. Acredita? Que ilusão.

Vamos ser sinceros, a história mostra que mundo já enfrentou situações infinitamente piores como guerras, genocídios e pandemias que marcaram gerações. Algo mudou? Sem ser as regras e os acordos frágeis de paz. O exemplo está aí, nem esperaram a "poeira" da pandemia baixar e já surgiu guerra na Ucrânia. Esquecemos rápido demais.

Eu sei que a realidade é cruel, mas entendam que essa é a natureza humana, não dá para esperar algo diferente, somos maus, cruéis, egoístas, gananciosos e pecadores. Sem o esforço diário, autocontrole e ação do Espírito Santo, cairemos facilmente na onda que só nos leva para a desumanização.

Não adianta sonhar com mudanças no âmbito coletivo e nem querer transformar o mundo, tudo vai depender da vontade de cada um. Fazer a diferença na vida dos seus é um excelente passo. Para aqueles que já possuíam virtudes antes, é possível que essas sejam ampliadas, o mesmo serve para quem não as tem. Não é nada fácil remar contra a maré, mas também não é impossível.


Registro feito na Praia da Joaquina, Florianópolis.

Amor próprio desordenado vai te destruir

 


Costumo dizer que tenho algumas opiniões impopulares, essa certamente é uma delas. Eu realmente acredito que o amor próprio desordenado pode te destruir.

No final da adolescência, quando comecei a ter alguns problemas emocionais e de carência, ouvi incontáveis "conselhos" afirmando que a origem estava na falta de amor próprio e por nunca me colocar em primeiro lugar nos relacionamentos. Meu lado teimosa não aceitava esse argumento, algo em mim não encontrava sentido. Com o tempo percebi que era só imaturidade mesmo.

O amor exagerado por si, provoca mesmo que inconscientemente, uma indiferença pelo outro. Não precisa ser muito esperto para perceber, é um fato, e não era isso que queria para mim. Na verdade esse é um movimento que tende a levar a um profundo vazio e solidão. Afinal, quem quer estar perto de alguém que é o centro do universo? Que não olha além do próprio umbigo.

Quem me ver assim, solteira, livre, dona de mim, independente e fazendo o que quero, jura que eu vivo só para me satisfazer, que meu mundo gira em torno de mim, que tudo o que busco é exclusivamente para me fazer feliz. Está completamente enganado, acredito que é uma armadilha fácil que pode te levar para um egoísmo e falta de sentido.

Amor de verdade é um movimento para fora, é entrega, é esvaziar de si para o outro. É amando genuinamente que esse amor transborda e te preenche, é o caminho que te leva para a felicidade genuína (e nem tudo se resume a amor romântico).

É nisso que acredito, e que vai contra ao que é vendido por aí como a solução para todos os problemas.

Cuidar de si faz parte do processo para adquirir maturidade, força e proteção, mas é um meio e não o fim.

Eu só falo daquilo que vivo.


Registro feito no Mirante da Janela, Chapada dos Veadeiros.

Recomendo desistir desse rótulo

 


Sabe aquele rótulo que você criou sobre mim? Então, deixa eu te contar, em algum momento vou rasga-lo.

- Pensei que você era...

- Não sabia que você...

31 anos ouvindo essas frases inúmeras vezes, provavelmente ainda vou ouvir mais algumas. As pessoas ficam caçando uma característica qualquer que me encaixa em alguma bolha. "Achei que você era roqueira", "Achava que era feminista", "Nunca imaginei que tu ouvia esse tipo de música", "Você dança forró?", "Você conversa?", "Já bebeu cerveja?", "Faz dancinha de Tiktok?", "Ler esse tipo de livro?"...a lista é imensa.

Minha vida seria mais fácil se eu simplesmente escolhesse um grupo para me encaixar. Sabe aqueles grupos estereotipados, onde todos possuem o mesmo comportamento, gosto, opinião e usam as mesmas roupas? Tenho pavor, pavor que minha vida seja roteirizada por um grupo. Não abro mão da minha liberdade de ter opinião própria e fazer minhas escolhas.

Já ocorreu de estar inserida em um grupo e inconscientemente replicar os mesmos comportamentos, até perceber que estava perdendo a própria identidade.

Quem se relaciona comigo precisa saber que nem sempre vou pensar igual e concordar com tudo, mas eu vou me propor a estar junto independente de qualquer coisa, a não ser que não veja sentido ou não me faça bem.

Minhas amizades mais lindas são aquelas onde a gente se encaixa entre as nossas diferenças.


Registro feito na Cachoeira Almecegas II, Chapada dos Veadeiros.

Da minha vida cuido eu

 


"Da minha vida cuido eu." Mas olha só, refletindo com uma frase da nossa eterna rainha da sofrência, Marília Mendonça.

Teoricamente, ao completarmos 18 anos, enfim assumimos as rédeas das nossas vidas e fazemos as próprias escolhas, levando em consideração principalmente a independência financeira. Parece o lógico, correto?

E se eu disser que na prática não é bem assim? Vivemos reféns da opinião dos outros, escravos das convenções sociais ou tentando agradar familiares. E quando menos espera, surge aquela pessoa inconveniente, que não te conhece, não convive e jura que sabe o que é melhor para você, os pitaqueiros de plantão.

É preciso escolher, ou você vive de acordo com o que o outro acha que é melhor para você, ou ignora e escuta calado até perder a paciência, ou corta o mal pela raíz e estabelece limites. Mas tenha peito para assumir as responsabilidades e consequências das suas escolhas, não vale transferir a culpa para terceiros pela vida que tem.

Não é arrogância, é apenas escolher os juízes certos que possuem esse direito de opinar, aquele que conhece a sua história, que sabe as suas dores, que está ao seu lado e que é seu abrigo.

Quando eu era criança, tinha o sonho de ser adulta, trabalhar e ser dona da minha vida. Acho que esse sonho consegui realizar.

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Deixei as postagens aqui um pouco abandonadas, mas minha cabeça permanece fritando. Primeiro vou transcrever os textos que fiz nas postagens do instagram, depois preparo mais. 

Registro feito no Parque Ecológico Dom Bosco, em Brasília.