segunda-feira, 30 de março de 2020

Relatos De Uma Quarentena (5)



Vamos falar sobre o luto? Geralmente associamos essa palavra a uma situação de morte, entretanto o luto pode ser enfrentado nas mais variadas formas possíveis, quando perdemos o emprego, estamos diante de uma enfermidade ou qualquer situação de dor relacionada com alguma perda. Essa fase que estamos passando reúne uma série de perdas, seja a perda da liberdade, a perda da conexão, do direito de livre circulação, da certeza sobre o que esperar do futuro, da capacidade de saúde, da garantia de emprego, do senso de segurança. Ou seja, é uma onda de medo, preocupação, ansiedade, angústia, incerteza, uma avalanche de sentimentos simultâneos que está gerando um sofrimento inevitável.

Estive lendo uma entrevista com David Kessler, um dos maiores especialistas em morte e luto no mundo. Ele relata que estamos passando por um tipo de sofrimento coletivo que não estamos acostumados a passar. O luto antecipatório é a incerteza sobre o futuro, é visualizar os piores cenários, e torna-se muito confuso para as pessoas saberem lidar com esse tipo de tristeza. Ele sugere uma saída para lidar com esse sofrimento, o primeiro deles é compreender os estágios do luto. Foram descritas as cincos fases do luto, não é uma definição exata, mas pode fornecer uma orientação.

A primeira é a negação, geralmente é a reação inicial, onde afirmamos que o vírus não vai nos afetar, não é grande coisa e não há motivos para alarde. A segunda é a raiva, caracterizada pela irritação por ser obrigado a interromper suas atividades e ficar em casa, ou se você fica revoltado com a negligência das outras pessoas. A terceira é a barganha, onde você finalmente aceita sua condição, porém, cria argumentos para se sentir melhor “se eu me distanciar por duas semanas tudo ficará melhor, certo?”. A quarta é a tristeza, deixando a pessoa realmente abalada e triste pela devastação que será na vida das pessoas, pelas inúmeras mortes que causará e por não saber quando será o fim. E por último a aceitação, é o estágio ideal que nos leva a tentar descobrir como proceder a partir desse cenário, aceitar conscientemente e trabalhar o corpo a alma e o espírito para ultrapassar essa fase sem mais danos. É aí que encontramos o poder de controle e aceitação, você aceita que precisa ficar em casa, lavar as mãos, manter a distância segura, trabalhar virtualmente. Podemos adicionar até um sexto estágio que seria o significado, não existe um significado exato, mas cada um vai conseguir encontrar o seu.

Essa primeira semana foi muito intensa, confesso que já intercalei por meio dessas fases, já neguei, já senti bastante raiva e uma profunda tristeza, espero conseguir chegar na aceitação e ser conforto para quem ainda está no desespero. Não quero negar o luto, quero permitir viver e sentir cada etapa, pois permitir que os sentimentos floresçam é dar a possibilidade de conseguir ordená-los. Espero poder respirar e não antecipar o que pode acontecer, deixar de lado aquilo que não consigo controlar e ter a certeza de que nós vamos sobreviver.

4.579 casos confirmados e 159 mortes.
Fonte: Ministério da Saúde


Link da entrevista: https://hbr.org/2020/03/that-discomfort-youre-feeling-is-grief

domingo, 29 de março de 2020

Relatos De Uma Quarentena (4)




Chegamos ao fim da primeira semana de quarentena absoluta, não lembro a última vez que estive tanto tempo sem sair de casa. Foi uma semana intensa, principalmente no que tange as notícias circuladas e as reações das pessoas, houve até carreata pedindo o fim da quarentena. Existe uma disputa com aqueles que valorizam mais a preservação da saúde, e aqueles que defendem seus empregos e fonte de renda, argumentando que sem eles a morte vai ocorrer de fome. Sinto que as coisas acalmaram um pouco, ou talvez eu tenha acompanhado menos. Consigo observar argumentos válidos em ambos os lados, porém, como afirmei anteriormente, a saúde e o controle da pandemia devem ser prioridade.

No meio disso tudo o que eu recebo? Uma ligação. Não foi qualquer ligação, foi praticamente uma reconexão com alguém muito especial e que não tinha um contato mais próximo por um bom tempo. Embora a motivação tenha sido mais delicada, o fato de estar durante 1h e 37 min entre momentos tensos e risadas, foi o suficiente para elevar substancialmente o meu nível de felicidade. Exagerado? Não me surpreende se a resposta for sim, pouquíssimas pessoas entendem o significado que isso tem para mim.

Na minha concepção de relacionamento, o tempo que você conhece a pessoa, o tempo de convivência, os mais variados assuntos que foi capaz de conversar, quantas saídas ou passeios juntos, são fatores importantes sim, mas não é tudo. Se encontro tudo isso em um relacionamento, tenho ao meu lado uma companhia agradável e que tenho o interesse de preservar. Porém, um vínculo forte e profundo precisa de conexão, aquele forte ato de rasgar seu peito e abrir seu coração, dividir aquilo que você pensa, que te aflige e te alegra verdadeiramente.
Ao sair desse período de isolamento, que possamos repensar e reformular como estamos nos conectando de fato com as pessoas mais queridas.

4.256 casos confirmados e 136 mortes.
Fonte: Ministério da Saúde


quinta-feira, 26 de março de 2020

Relatos De Uma Quarentena (3)




Então, ontem comentei que fui surpreendida por um pronunciamento incoerente do nosso querido presidente Bolsonaro, que menosprezou os riscos do coronavírus e estimulou o abandono da quarentena, alegando a urgência da crise econômica.  O resultado disso foi que agora estamos em uma disputa política, os eleitores da direita defendem cegamente o posicionamento do presidente, e quem defende a quarentena automaticamente se enquadra como esquerdista privilegiado, corre o risco até de ser ofendido.

E como eu fico no meio disso tudo? Revoltada e triste. Revoltada porque tudo nesse país se resume a defender seus ideais, suas ideologias políticas, o brasileiro realmente não me surpreende nesse quesito, e triste porque dessa vez o que está em jogo não é uma eleição, mas sim vidas humanas. Preservar a vida é um princípio inegociável para mim, está acima de qualquer coisa, não me importo para esse conceito de vida inocente e vida culpada, é uma vida e ponto, sem discussões. Hoje minha psicóloga disse que eu deveria tentar dar mais atenção aos atos de bondade que estão brotando em meio a esse caos, que o mal nunca deixará de existir e focar apenas nisso pode nos machucar muito. Tentarei seguir essa orientação.

No fundo eu não quero acreditar que a vida humana é tão desprezada, ignorada, desvalorizada e descartada pelas próprias pessoas, o que não faz sentido nenhum para mim. Dificilmente encontraremos outra espécie animal que abandona os seus, já os humanos fazem isso sem muito esforço. Geralmente alguma outra pauta vai ser prioridade, seja dinheiro, poder, defender uma ideologia ou crença, estilo de vida, convicções próprias, tudo isso é mais importante do que seu próximo. Onde está o amor? Passou muito longe, e é chegar nessa conclusão que faz o meu coração sangrar. Concluo esse texto em lágrimas, que Deus tenha compaixão e perdoe as pessoas, elas não sabem o que fazem.

2.915 casos confirmados e 77 mortes
Fonte: Ministério da Saúde

quarta-feira, 25 de março de 2020

Relatos De Uma Quarentena (2)





Pensei em escrever ontem, mais fui surpreendida por um discurso do nosso querido presidente que tumultuou um pouco o fim do dia.

Estou em fase de adaptação da nova rotina como home office, acordei com minha mãe chamando para tomar café e me dei conta que faltavam 8 minutos para começar o expediente oficial da empresa. Trabalhar em casa tem suas vantagens, é possível ser mais flexíveis nos horários, não gasta dinheiro com gasolina, pode ficar mais à vontade quanto a roupa, diminui o estresse com os colegas e clientes, entre outros.

Sobre as desvantagens vou citar apenas uma, o isolamento social. Para alguns perfis isso pode soar maravilhoso, em partes posso até me encaixar em algum deles, porém, não podemos negar que as relações humanas são fundamentais para nossa saúde e desenvolvimento. Por incrível que pareça eu sinto falta de estar perto de gente, das pessoas que fazem parte do meu dia-a-dia, meus colegas de trabalho, de dar risadas com conversas bobas, de sorrisos, abraços, mesmo que alguns te deixem irritados. É engraçado por que essa situação é bem diferente de férias, nas férias temos a oportunidade de limpar a mente, fazer outras atividades, viajar, conhecer novas pessoas etc. Agora, passo o dia inteiro olhando apenas para a tela do computador e em alguns intervalos vejo a minha mãe.

Como já era de se esperar, as redes sociais estão uma loucura, mesmo que seja a forma mais prática de manter contato com pessoas, talvez seja necessário repensar as restrições de uso, pelo nosso próprio bem. Vou tentar desenvolver esse assunto em outro post.

Sobre os dados, estamos em 2.433 casos confirmados e 57 mortes.
Fonte: Ministério da Saúde

segunda-feira, 23 de março de 2020

Relatos De Uma Quarentena (1)






Estou beirando os 30 anos e pela primeira vez na minha vida presencio um momento de extrema gravidade no mundo, sem dúvida essa geração não viveu algo parecido, o último relato foi da Gripe Espanhola que matou em média 50 milhões de pessoas. No início de 2020 ouvimos falar pela primeira vez no Covid-19, mais conhecido como o novo coronavírus. O vírus não é tão letal, porém, possui um forte e rápido poder de transmissão. Estamos chegando perto de 400 mil casos confirmados em todo o mundo e 16 mil mortes. O único meio de tentar controlar a doença é através do isolamento social.

Hoje começa oficialmente o isolamento aqui na minha cidade, shopping, comércio, transportes, academias, entre outros, estarão fechados por tempo indeterminado. No início do dia tive que sair rapidamente para buscar um equipamento e assim poder trabalhar como home office, no caminho fui observando a situação e refletindo. Realmente o cenário na rua é apocalíptico, sem pessoas e veículos circulando.

Lembrei do quão grande é a fragilidade humana, de como somos pequenos e vulneráveis diante de um vírus praticamente invisível, porém capaz de mudar a rotina de todo um planeta. Imaginar que a maior parte do mundo está nessa mesma situação, acompanhamos imagens e notícias de como os outros países estão enfrentando essa batalha.  É assustador.

Tenho outras questões para desenvolver, porém, vou tentar diluir em outros posts. Vamos ficar em casa e sermos responsáveis, mesmo que não faça parte do grupo de risco, podemos contaminar quem seja e colocarmos a vida ou morte dele(a) nas nossas mãos, com certeza não queremos isso.