Vamos falar sobre o luto?
Geralmente associamos essa palavra a uma situação de morte, entretanto o luto
pode ser enfrentado nas mais variadas formas possíveis, quando perdemos o
emprego, estamos diante de uma enfermidade ou qualquer situação de dor
relacionada com alguma perda. Essa fase que estamos passando reúne uma série de
perdas, seja a perda da liberdade, a perda da conexão, do direito de livre
circulação, da certeza sobre o que esperar do futuro, da capacidade de saúde,
da garantia de emprego, do senso de segurança. Ou seja, é uma onda de medo,
preocupação, ansiedade, angústia, incerteza, uma avalanche de sentimentos simultâneos
que está gerando um sofrimento inevitável.
Estive lendo uma entrevista com
David Kessler, um dos maiores especialistas em morte e luto no mundo. Ele
relata que estamos passando por um tipo de sofrimento coletivo que não estamos
acostumados a passar. O luto antecipatório é a incerteza sobre o futuro, é
visualizar os piores cenários, e torna-se muito confuso para as pessoas saberem
lidar com esse tipo de tristeza. Ele sugere uma saída para lidar com esse
sofrimento, o primeiro deles é compreender os estágios do luto. Foram descritas
as cincos fases do luto, não é uma definição exata, mas pode fornecer uma
orientação.
A primeira é a negação, geralmente
é a reação inicial, onde afirmamos que o vírus não vai nos afetar, não é grande
coisa e não há motivos para alarde. A segunda é a raiva, caracterizada pela
irritação por ser obrigado a interromper suas atividades e ficar em casa, ou se
você fica revoltado com a negligência das outras pessoas. A terceira é a
barganha, onde você finalmente aceita sua condição, porém, cria argumentos para
se sentir melhor “se eu me distanciar por duas semanas tudo ficará melhor,
certo?”. A quarta é a tristeza, deixando a pessoa realmente abalada e triste
pela devastação que será na vida das pessoas, pelas inúmeras mortes que causará
e por não saber quando será o fim. E por último a aceitação, é o estágio ideal
que nos leva a tentar descobrir como proceder a partir desse cenário, aceitar
conscientemente e trabalhar o corpo a alma e o espírito para ultrapassar essa
fase sem mais danos. É aí que encontramos o poder de controle e aceitação, você
aceita que precisa ficar em casa, lavar as mãos, manter a distância segura,
trabalhar virtualmente. Podemos adicionar até um sexto estágio que seria o
significado, não existe um significado exato, mas cada um vai conseguir
encontrar o seu.
Essa primeira semana foi muito
intensa, confesso que já intercalei por meio dessas fases, já neguei, já senti bastante
raiva e uma profunda tristeza, espero conseguir chegar na aceitação e ser
conforto para quem ainda está no desespero. Não quero negar o luto, quero
permitir viver e sentir cada etapa, pois permitir que os sentimentos floresçam é
dar a possibilidade de conseguir ordená-los. Espero poder respirar e não
antecipar o que pode acontecer, deixar de lado aquilo que não consigo controlar
e ter a certeza de que nós vamos sobreviver.
4.579 casos confirmados e 159 mortes.
Fonte: Ministério da Saúde
Link da entrevista: https://hbr.org/2020/03/that-discomfort-youre-feeling-is-grief

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